terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mais uma despedia


Que coisa é o amor
que todo dia
me põe a fazer perguntas
e a carregar
a minha e a tua
solidão.
O meu e o teu
medo.
A eminência da perda.
O mar
O sol
Um pedaço pulsante de vida
num horizonte
que não há.

As perguntas
que eram somente dúvidas
vão lentamente
transformando-se
em resposta-pedra.

Resposta
pela metade
no meio do caminho.
No meio
mais perguntas
e pedras.

[ VG]


domingo, 22 de novembro de 2015

Doendo

Como retirar o véu
da noite
que agora
há na tua distância?

Assim,,,,tão encoberta
não sei mais
a medida
das ruas
do voo
do meu corpo

Olho todos os caminhos
mas sem vê-los
porque
ainda sigo
o mapa
que você decalcou
em mim.

Como arrancar
essa agulha
espetada
bem no meio
da coluna
vertebral
do sonho?

Sim, eu sei que posso continuar.
O problema é andar
assim
doendo...

[VG]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Infância

Havia hortênsias
bem azuis
e uma caminhozinho
de terra.
As hortênsias ficavam
do lado direito
azulclareando.

E eu
não sei mais
como chegar
lá.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Doce de ameixa

Queimei o doce de ameixa
que eu preparava naquela
noite.

Não faz mal.

O doce queimou
enquanto
eu procurava
uma ou duas palavras
para cozinhar
o tempo do teu sorriso
que lentamente e
açucarado
tornava-se alimento
em mim.

[VG]

Sorriso


Por um instante
o universo
suspendido
anuncia
um momento de luz
e festa
quando o teu sorriso se abre
para mim.

Entro por essa porta
sem saber se é seguro
se há caminho nela.

Dura tão pouco esse momento
mas fica
aqui
(dentro)
uma sensação
interminável
e anônima
desse encontro.

Penso em todas as possibilidades
do amor
encontradas
nesses
sorrisos

[VG]

domingo, 8 de novembro de 2015

Do desejo

Dentro da noite veloz
ela (um aquario
com um peixe dentro).
escuta o silencio
de fora
mas nao enxega
o escuro
marulhoso
de dentro.

[VG]



Dentro da noite veloz

Dentro da noite veloz,
uma camisola
antiga
insinua
o corpo
adormecido
no desejo
recolhido
do teu corpo.

A tua imagem
expandida
e materializada
na velocidade
da noite,
amanhece o dia
sem navios,
sem horizonte.

[VG]

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Puzzle


Aeroporto

A tua voz
ainda ressoa
aqui
dentro:

"eu te amo, ouviste?"

[silêncio]


[VG]

Casamento

Quando comprei aquele vestido
branco
"tomara que caia"
e aquela sandália
cheia de brilho,
pensava em me casar com você.


Era tudo muito simples, mas ainda faltava
uma flor para o cabelo e um poema
para ser lido.
Eu te leria o poema...
Não! Eu saberia cada verso.
Não precisaria ler. Falaria o poema olhando
nos teus olhos.


Seria um casamento de mentira.
De verdade. De mentira e de verdade.
Tudo estava indo tão bem.


Só faltava o poema.


Mentira!


Faltava você chegar.


Como você não veio
nem telefonou.
Usei o vestido no Ano Novo.
Sempre se aproveita porque é branco.
Usei também a sandalinha.


E o poema ainda está aqui.
Porque poema sabe esperar...


[VG]




domingo, 1 de novembro de 2015

49

Quarenta e nove poemas
para tecer a volta
e te trazer
aqui
para o centro
desse texto
tão incerto.

Porque é neste centro
que a vida
se realiza
lilás
e azul.


Mar e violeta.
Oceano
surgindo
na presença da maré
que não regressa
nem prepara a tua volta.


Quarenta e nove poemas
molhados de chuva,
rasgados de sol.


Plantados na madrugada
insone,
regados de ausências,
portas e janelas
abertas
no silêncio
machucado da noite.


Quarenta e nove poemas
em vão...

[VG]

Silêncio.

Sinto o universo
tão generoso
que percorre
o teu corpo-araçá
brotando
folha
flor
e frutos


nesta manhã
assustada
em mim.

[VG]



A casa de Jorge


A casa de Jorge continuou
levantando paredes,
construindo cômodos
e narrativas dentro
de um lugar
escrito
falado
por tantos...
que agora
(baixinho)
escuto aqui
bem dentro
ecoando
cravo e canela.

"Mas como pode uma pessoa dar de comer e beber a tantos personagens?"
Por quê?

Não estou mais lá
e os livros já estão na estante,
mas aquele jardim,
aquela mulher,
aquelas cartas
expostas na gaveta
persistiram
numa casa de palavras
sentimentos
que a poesia
um dia
levantou
em mim.

[VG]



Aquele prato de Jorge e Zélia parede ...

Deixa...

Quando nos separamos,
o teu silêncio
não me deixou te dizer
que

(: - nada)

[VG]

Silêncio

Nesta tarde fria,
a chuva
é uma canção
na janela,
do barulho
(que é dela)
e do silêncio
(que é teu).

[VG]







Frágil


Não sei o que fazer com isso tudo
que nasce tempestade
e chove
com raios
e trovões
dentro desse
canteiro de avenca
que você
fez
nascer
aqui.

[VG]

Pernas e palavras quebradas

Estou tomando gosto pelo azedo
das palavras,
na casca do limão,
a tua poesia
mal feita,
sabor
que arrepia
e incomoda.

Estou tomando gosto pelo amargo
das palavras,
uma xícara de café
encorpado
de palavras
escuras
anoitecidas
na tempestade
e no vento
que nasce
na tua alma-asa ferida

Entendo melhor o tempo
e as tuas pernas
quebradas,
içadas
para dentro
do teu
único
caminho.

Minhas pernas
também quebradas,
içadas
para o tempo
da vida
aceitam o cansaço
que a tua
paisagem
desenhou
para mim.

[VG]







Tua vinda


Quando ele disse que vinha,
coração,
cérebro
e as paredes da casa
se puseram em alerta.

Vem? Não vem?!
Vem!
Não vem!

Mesmo que ele não venha,
já veio.

E esse vir,
que veio chegando
de lá de dentro,
do desejo de chegar,
altera
a cor da parede,
a almofada do sofá na sala de estar,
a colcha da cama,
e o perfume da casa.

Transforma, igualmente, em mim
o tempo da espera,
a ilusão da chegada
e o desejo
de arrumar
a casa,
a cama
e o meu cabelo.

alcança um estado
de
lírio
branco
num vaso
vermelho

adormece
uma dúvida
antiga
sobre o desamor.

Vitoriosa,
reconheço que não vens
e aceito
que a tua vinda
tem a duração
e a constância
daquele olhar
antigo
que penetrou
a minha pele
descobrindo o mapa
e a bússola
para depois
esquecer de como se atravessa
o mar.

O caminho,
esquecido
no escuro,
existe
embaixo dos teus pés
que já não sabem mais
chegar.

[VG]


Foto: Casa de Jorge Amado - Jardim