segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Chico Cesar&Maria Bethânia - Onde estara o meu amor

Chico Cesar&Maria Bethânia - Onde estara o meu amor

Página em branco

Hoje eu tenho
uma página
em branco,
pingos na janela,
um coração cego
de tanto olhar a tua imagem
margem
legenda,
que se desconfigura
a todo momento
dos programas
implantados
no softcor.

Tenho também
muita tinta
para preencher
a solidão
dessa folha.

E de sobra
uma tecla que me permite
apagar
e recomeçar
apagar
e recomeçar
apagar
e



[VG]






terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Arroz doce

O arroz doce tem o cheiro
da canela,
da minha infância,
da minha mãe.

A minha mãe se foi.
A infância também.
A canela
e toda a memória que ela
acende
em mim

continua
suavemente
perfumando
um não-sei-o-quê
que está na travessa
na borda de canela
em mim.


[VG]


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mais uma despedia


Que coisa é o amor
que todo dia
me põe a fazer perguntas
e a carregar
a minha e a tua
solidão.
O meu e o teu
medo.
A eminência da perda.
O mar
O sol
Um pedaço pulsante de vida
num horizonte
que não há.

As perguntas
que eram somente dúvidas
vão lentamente
transformando-se
em resposta-pedra.

Resposta
pela metade
no meio do caminho.
No meio
mais perguntas
e pedras.

[ VG]


domingo, 22 de novembro de 2015

Doendo

Como retirar o véu
da noite
que agora
há na tua distância?

Assim,,,,tão encoberta
não sei mais
a medida
das ruas
do voo
do meu corpo

Olho todos os caminhos
mas sem vê-los
porque
ainda sigo
o mapa
que você decalcou
em mim.

Como arrancar
essa agulha
espetada
bem no meio
da coluna
vertebral
do sonho?

Sim, eu sei que posso continuar.
O problema é andar
assim
doendo...

[VG]

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Infância

Havia hortênsias
bem azuis
e uma caminhozinho
de terra.
As hortênsias ficavam
do lado direito
azulclareando.

E eu
não sei mais
como chegar
lá.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Doce de ameixa

Queimei o doce de ameixa
que eu preparava naquela
noite.

Não faz mal.

O doce queimou
enquanto
eu procurava
uma ou duas palavras
para cozinhar
o tempo do teu sorriso
que lentamente e
açucarado
tornava-se alimento
em mim.

[VG]

Sorriso


Por um instante
o universo
suspendido
anuncia
um momento de luz
e festa
quando o teu sorriso se abre
para mim.

Entro por essa porta
sem saber se é seguro
se há caminho nela.

Dura tão pouco esse momento
mas fica
aqui
(dentro)
uma sensação
interminável
e anônima
desse encontro.

Penso em todas as possibilidades
do amor
encontradas
nesses
sorrisos

[VG]

domingo, 8 de novembro de 2015

Do desejo

Dentro da noite veloz
ela (um aquario
com um peixe dentro).
escuta o silencio
de fora
mas nao enxega
o escuro
marulhoso
de dentro.

[VG]



Dentro da noite veloz

Dentro da noite veloz,
uma camisola
antiga
insinua
o corpo
adormecido
no desejo
recolhido
do teu corpo.

A tua imagem
expandida
e materializada
na velocidade
da noite,
amanhece o dia
sem navios,
sem horizonte.

[VG]

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Puzzle


Aeroporto

A tua voz
ainda ressoa
aqui
dentro:

"eu te amo, ouviste?"

[silêncio]


[VG]

Casamento

Quando comprei aquele vestido
branco
"tomara que caia"
e aquela sandália
cheia de brilho,
pensava em me casar com você.


Era tudo muito simples, mas ainda faltava
uma flor para o cabelo e um poema
para ser lido.
Eu te leria o poema...
Não! Eu saberia cada verso.
Não precisaria ler. Falaria o poema olhando
nos teus olhos.


Seria um casamento de mentira.
De verdade. De mentira e de verdade.
Tudo estava indo tão bem.


Só faltava o poema.


Mentira!


Faltava você chegar.


Como você não veio
nem telefonou.
Usei o vestido no Ano Novo.
Sempre se aproveita porque é branco.
Usei também a sandalinha.


E o poema ainda está aqui.
Porque poema sabe esperar...


[VG]




domingo, 1 de novembro de 2015

49

Quarenta e nove poemas
para tecer a volta
e te trazer
aqui
para o centro
desse texto
tão incerto.

Porque é neste centro
que a vida
se realiza
lilás
e azul.


Mar e violeta.
Oceano
surgindo
na presença da maré
que não regressa
nem prepara a tua volta.


Quarenta e nove poemas
molhados de chuva,
rasgados de sol.


Plantados na madrugada
insone,
regados de ausências,
portas e janelas
abertas
no silêncio
machucado da noite.


Quarenta e nove poemas
em vão...

[VG]

Silêncio.

Sinto o universo
tão generoso
que percorre
o teu corpo-araçá
brotando
folha
flor
e frutos


nesta manhã
assustada
em mim.

[VG]



A casa de Jorge


A casa de Jorge continuou
levantando paredes,
construindo cômodos
e narrativas dentro
de um lugar
escrito
falado
por tantos...
que agora
(baixinho)
escuto aqui
bem dentro
ecoando
cravo e canela.

"Mas como pode uma pessoa dar de comer e beber a tantos personagens?"
Por quê?

Não estou mais lá
e os livros já estão na estante,
mas aquele jardim,
aquela mulher,
aquelas cartas
expostas na gaveta
persistiram
numa casa de palavras
sentimentos
que a poesia
um dia
levantou
em mim.

[VG]



Aquele prato de Jorge e Zélia parede ...

Deixa...

Quando nos separamos,
o teu silêncio
não me deixou te dizer
que

(: - nada)

[VG]

Silêncio

Nesta tarde fria,
a chuva
é uma canção
na janela,
do barulho
(que é dela)
e do silêncio
(que é teu).

[VG]







Frágil


Não sei o que fazer com isso tudo
que nasce tempestade
e chove
com raios
e trovões
dentro desse
canteiro de avenca
que você
fez
nascer
aqui.

[VG]

Pernas e palavras quebradas

Estou tomando gosto pelo azedo
das palavras,
na casca do limão,
a tua poesia
mal feita,
sabor
que arrepia
e incomoda.

Estou tomando gosto pelo amargo
das palavras,
uma xícara de café
encorpado
de palavras
escuras
anoitecidas
na tempestade
e no vento
que nasce
na tua alma-asa ferida

Entendo melhor o tempo
e as tuas pernas
quebradas,
içadas
para dentro
do teu
único
caminho.

Minhas pernas
também quebradas,
içadas
para o tempo
da vida
aceitam o cansaço
que a tua
paisagem
desenhou
para mim.

[VG]







Tua vinda


Quando ele disse que vinha,
coração,
cérebro
e as paredes da casa
se puseram em alerta.

Vem? Não vem?!
Vem!
Não vem!

Mesmo que ele não venha,
já veio.

E esse vir,
que veio chegando
de lá de dentro,
do desejo de chegar,
altera
a cor da parede,
a almofada do sofá na sala de estar,
a colcha da cama,
e o perfume da casa.

Transforma, igualmente, em mim
o tempo da espera,
a ilusão da chegada
e o desejo
de arrumar
a casa,
a cama
e o meu cabelo.

alcança um estado
de
lírio
branco
num vaso
vermelho

adormece
uma dúvida
antiga
sobre o desamor.

Vitoriosa,
reconheço que não vens
e aceito
que a tua vinda
tem a duração
e a constância
daquele olhar
antigo
que penetrou
a minha pele
descobrindo o mapa
e a bússola
para depois
esquecer de como se atravessa
o mar.

O caminho,
esquecido
no escuro,
existe
embaixo dos teus pés
que já não sabem mais
chegar.

[VG]


Foto: Casa de Jorge Amado - Jardim

sábado, 31 de outubro de 2015

Cotidiano

Naquela manhã
em que você foi trabalhar,
fiquei por ali na casa,
no sofá,
na varanda.

Olhei para as flores,
para a rua
e
voltei para a cozinha,

Andei a casa toda
e o calor
não me permitia sair.

Gostava daquela sensação
de estar ali
e de saber
que
era tudo impregnado de ti:
a parede cheia de retratos, pinturas e fotografias.
Muitas flores na sacada,
os discos, os livros, a toalha da mesa.

A tua roupa no varal,
o teu cheiro e a tua presença.

O silêncio
a espera
dos teus barulhos.


[VG]

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tintas rubras

Que minhas tintas
rubras
me detenham
na embriaguez
que
ainda
posso
ser.

[VG]

Tempo


Por que a gente nunca sabe mesmo o que fazer com a dor...
Deixá-la doer custa...
Ignorá-la não é possível.
Ler poemas
Trabalhar
Esquecer

Tempo
Tempo
Tempo

ocupa essa dor aqui dentro


[VG]

Pausa



Pausa

Meus olhos ainda te enxergam
daqui
de longe

nesse altar
tão solitário
te vejo
único,
comandando
uma veia
dentro
de mim.

[VG]



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A tua falta


Sobre essa falta
tenho desenhado
o meu corpo,
inteiro,
desejoso,
lacunar
e pesado.

Nesta ausência
tenho pintado,
bordado
e tricotado

a lembrança do teu olhar
o gosto do teu corpo
a festa do teu riso

a tua mão me procurando
pela noite.

Não posso maldizer esta falta
porque ela te traz aqui
para o centro
do poema
e acordar o meu desejo

que se alimenta
dia a dia
do teu corpo
palavra
ausente.

Quantas palabras busco
para evidenciar a tua falta
todas elas te tornam
vivo
dentro do meu esquecimento
que não tem fim

[VG]





terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cesária Évora - Tanha

Mais

Mais

Essa dor
atravessada
no peito
percorre todos os vãos
que há em mim,
esparramando-se.

Encontra, naquelas ruas
que davam ao mar,
a lembrança
da luz
que o teu olhar tinha.

Já não posso segurá-la
nem transformá-la
(com as minhas mãos)
em palavras...

Nem com o meu corpo
em poesia

Corre
rio adentro
numa busca
desesperada

por um caminho
novo

Mas quando meus olhos
buscam aqui
dentro
essa porta,
lá você está

Já não me espera
nem me deixa
partir

[VG]

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Todo cambia

Todo Cambia
Agnès Jaoui


Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Agnès Jaoui - Todo Cambia [15.05.2011]

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O oceano e a distância



Como me despedir dessa espera?
Ela alimenta o horizonte
que te traz
todas as manhãs
quando ainda
não estás aqui

[VG]
20.10.2015




domingo, 18 de outubro de 2015

Praia

Praia

Uma camisa branca
e uma calça jeans
cobriam teu corpo
na entrada
daquela porta
que se abria
para mim.

Porta e corpo abertos,
passeio noturno
pela pele
em busca
daquilo que somos,
juntos.

Encontro.



[VG]

Desist(indo)

De amoras e tintas rubras
do instante
pinto  palavras
para te afastar de mim.

Palavras de distâncias,
ausências
evocadas do escuro
do teu silêncio.

Se você pudesse vir
pelo caminho
dolorido
que há em mim
e pudesse
pisar
nesse chão que sou agora,
verias que rochas,
que paredes,
que dureza
me faço
para
que não me invadas.

Descobrirei,
com tintas
vibrantes,
um novo jeito
de resistir.

[VG]
]



La habitación

A casa
tem sabor de primavera,
e ele
junto com as flores
que estão no balcao
projetam
algodão
girassol
mãos de terra e
semente.

`[VG]

Imagem: VG - Valência-

Ele não sabe

Os braços dele
fraternos de água,
de perfume
das plantas que ele ostenta
na janela
são rede
do tempo
absorvido
pela delicada forma
que o seu olhar
embala.

Mas
ele não sabe.

[VG]

Dor




Por detrás das chagas que ele têm
um poço enorme quer chorar e
escorrer,
por todo o caminho,
os escuros que estão lá.

[VG]


Imagem: Broke Shaden

Retão

Retão

Aquela moça parada na esquina
com aqueles peitos duros
apontados para a festa,
pedia qualquer coisa

um olhar que a visse com dinheiro,
talvez um corpo que a saudasse sem medo
do segredo que ela oculta.

[VG]

Agora

Agora que as coisas já se tornaram visíveis,
posso enxergá-las com maior clareza.
Tua casa tão vazia de ti,
Teu corpo tão sozinho, e tua armadura
tão lustrada.

Não me faz falta olhar para aquele mar,
embora fosse tão bonito e indescritível.
O que era belo nele foi se diluindo
com a tua ausência nas cores e nas ondas
que ele me apresentava.

Você não é mais aquele mar,
nunca foi.
Talvez a areia com pegadas
ainda permaneça, mas as pegadas
eram somente tuas.

E o destino?
para longe,
para dentro de ti.

[VG ]





Pausa

Ontem, preferi dormir.
Um cansaço tomou conta do meu corpo
e da minha cabeça.
Tentava compreender o que se passa e
por onde passa esse deserto que agora há em mim,
uma descrença
que altera esse dia, mergulhado no escuro
dos domingos e sábados.

Não encontro palavras que possam me vestir,
Todas anunciam uma segunda-feira
chuvosa,
recolhida
nas paredes do quarto,
no lençol da cama
que me adere ao corpo
bloqueando-me o gesto.

Toda tentativa de sair daqui
é inútil.
Nenhuma palavra me alcança
Só o silêncio que elas têm
adormece comigo.

[VG]


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Silêncio



A tua boca cheia de palavras
que você não diz
ainda vai te sobrecarregar as mãos
e o corpo com o peso que elas têm.

Dizê-las com uma certa regularidade
pode enfraquecê-las.
Guardá-las como tu as guarda, pode não ser bom.
Elas vão tomando força lá dentro,
vão crescendo sem medida,
prontas para escapar num momento qualquer
sem a condução exata,
virar muro,
grade,
escuro.

Arrebenta cada letra,
vagarosamente,
que é para não assustar.
impunha com autoridade
esse não
esse sim
talvez,
mas repita,
e se for necessário grita
uma
duas
ou um pedaço que seja
de qualquer palavra que te lance,
e te resgate.

[VG]

Imagem: Broke shaden

Limite



Imagem: B.Shaden




Limite


Tua alma de jardim
engendra borboletas em mim,
e teu corpo quando passeia
nos penhascos que ainda há aqui,
alinhava horizontes
nos becos
desviados
de todas as rochas
que quiseram me ruir.

Não.
Nada é tão escuro assim.
Não somos tão fortes!
Aceita essa fraqueza
como a nossa máxima recompensa.
Flor que se desmancha no vento,
palavra que se recolhe
no íntimo
e alimenta-se ferozmente
da força que ainda a fará
ser foice e
fronteira.

[VG]


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fome

...algo que ela não sabia mais o que era, ou algo que ela não mais queria ver, ou algo que a desviava para atormentá-la. Que peso era aquele? Que para além da alma se incorporava ao corpo?

O verbo não era ter, nem precisava, mas sim querer. O que ela queria mesmo? Era preciso lembrar-se para que a fome fosse alimentada.

Agora, o que ela podia era dar de comer e beber aos seus personagens, para que eles pudessem ajudá-la a afinar os seus sentimentos.

[VG]



Eterno

Todos os dias penso em ti,
por isso, escrevo.
Quero te esvaziar em mim,
sílaba por sílaba
até você ser  qualquer coisa ou som
que desocupe esse lugar de fome
e sede.

Ouço todos os dias a mesma música
e a cada vez que a ouço, penso que não posso te querer,
que não posso mais esperar e
que não há mais tempo,

O amor ficou eterno para ti.
tão eterno que só ocupa a dimensão do tempo.
o espaço e a vida que reclamam esse sentimento
nada podem esperar.

A eternidade ganhou a tua presença
que não existe na minha segunda-feira
nem no meu e-mail
nem no meu corpo.

Todos os dias me despeço de ti,
no desejo de te ver sumindo em cada frase,
de ver teu olhar desaparecendo na palavra
eternidade que você contruiu para me distrair.

A duração só existe aqui nesse inferno
do apagamento da tua eternidade.

[VG]






terça-feira, 13 de outubro de 2015

Amor eterno

Um pedaço de poema já seria um consolo
para este dia em que te leio:
"amor eterno".
Quantas portas de saída encontro
no teu gesto.
palavras amigas,
distância,
vazios.

mas o teu olhar já me disse:
- entra!
e o teu corpo já me disse:
- fica!
e o tempo ...
o tempo proclama:
continua.
resiste!
A vida é assim:
hoje isso,
amanhã aquilo.

No meio de tanta mudança,
fica você
pairando naquele dia
com olhos, bocas e desejo
todo em mim.

E a porta que me mostrou o amor que havia em ti
foi a mesma que me viu partir,
acreditando,
loucamente,
naquela imagem.
(instantânea)

[VG]
.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

6 - Manuel Rui

6
Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca
Entre a guerra e a paz
retorno fisicamente o poema      a onda
constante meditação primeira.
Nós e as coisas.
Nada permanece que não seja
para a necessária mudança.
Que o diga o mar.
(Cinco vezes onze - poemas em novembro)

MANUEL RUI

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Pra quem não vem

Pra quem não vem

Invernoso é o nosso amor
dentro do rosario de contas
que agora há no meu olhar.

Distante é o corpo desejoso,
girassol,
oceano transbordado
pelas tuas mãos seguras:
mapa,
bússola,
ilha.

[VG]

Amor



Com palavras de sol,
de água,
de terra,
ele nasce e começa a existir:
imagem,
voz e
corpo.

No inverno,
dorme,
fala baixinho,
quase não se vê.

Nomear esse sentimento é um perigo.
Nomear é dar vida e permitir que ele exista
primaveril,
desejoso,
incontido.

Invernoso é o tempo do nosso amor!

06.10.2015 22h

[VG]




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Nada


As ruas,
calçadas,
noites de vento e chuva,
tudo isso
não me traz você.

Nem aquela música, nem aquele perfume que você me deu.
Muito menos aqueles dias...
Aquela ilha.
Teu corpo sentado naquela cadeira enconstada
na parede.
Tua camisa marrom, de manga longa,
tua calça clara.
Nada disso me traz você .

Nem o beijo...
Nem tuas mãos procurando as minhas.
Nem a comida que você fez para mim.

A fotografia que está na cabeceira da cama é montagem.
Não estava contigo naquele momento.
Nem estou agora.

E se cuido daquele araçá, não é porque ele
foi a promessa de um fruto que eu não conhecia,
mas porque ele foi a espera que você construiu para mim.

Araçá sem fruto e sem flor.
Galho,
Folha e vento.

[VG]





Silêncio






O silêncio não retalha feridas.
o silêncio infla,
expande,
acrescenta
e faz endurecer a pele
que acolhe a dor.

A  pele endurecida
com tantas camadas de silêncio,
vai calando uma voz
que poderia ter gritado
e arranhado todas as paredes
da tua indiferença.

[VG]


Imagem: Brooke Shaden




Palavra

Palavra

Preencha o branco
margeado
da folha
com esse escuro cavado
do oco do nada,
mostra o escuro que há nele
mostra a fundura.

e depois
escolha um par de asas
e um esmalte
vermelho.

[VG]
Imagem: Brooke Shaden

Caminho




Arranquei de dentro da luz
que havia no tempo da flor
a raiz da tua seiva e
sigo
de-sis-t (indo).

[VG]





Ausência



... E embora tuas pernas caminhassem por toda a casa
e eu pensasse que elas conhecessem todos os caminhos,
deparo-me com os vãos jamais percorridos,
e quando os vejo assim:
sem as tuas marcas,
não sei se o tempo foi quem as apagou ou
se sou eu mesma que não as enxergo mais...
você os pisou?

[VG]

domingo, 4 de outubro de 2015

domingo, 3 de maio de 2015

AS palavras

as palavras

"Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero"

Alice Vieira
"Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim."

Álvaro de Campos.


Esta manhã comecei a esquecer-me de ti

"Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."

Rui Costa

sábado, 2 de maio de 2015

Poema V
Hilda Hilst
 

A Federico García Lorca 

Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
que bebi na tua boca a fúria de umas águas
eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah! Se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
e cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.


Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?

“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”


E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.



O poema acima foi publicado no livro "Poemas aos homens de nosso tempo”, Ed. Globo, São Paulo - 2003, pág. 109.